sábado, 7 de fevereiro de 2009


Os animais de poder na cultura nativa brasileira

A sacralização dos animais vem de época muito remota, onde a relação ser humano e animal se dava pela convivência próxima e a necessidade de sobrevivência. Essa proximidade instigou no ser humano a observação dos animais e a descoberta de similaridades no comportamento instintivo de ambos, estando, então, não somente ligados pelo fator sobrevivência, mas também a poderes mágicos e divinos.
Assim, ser humano e animal, ocupando o mesmo espaço, estabeleceram vários tipos de relações, como a de caça e caçador, domesticação, guardiões e representantes das forças divinas e naturais.
Na mitologia nativa, bem como na arte, encontramos o desenrolar místico da relação ser humano-animal.
As tradições ameríndias estão impregnadas de uma essência mítica trazendo até nós feitos de guerreiros, caçadores, tribos, curandeiros e suas relações com seres encantados, deuses, espíritos ancestrais e animais de poder.
Através das lendas podemos garimpar esses significados, trazendo à tona as jornadas criativas dos habitantes nativos do norte ao sul do Brasil.
Essas jornadas trazem em seu cerne elementos que podem auxiliar-nos hoje na busca da compreensão do ser humano na sua totalidade, no nosso autoconhecimento, através da sua relação com os animais de poder e sua visão mágica de mundo.


Associando aos animais de poder certas manifestações divinas, encontramos na tradição oral Guarani, o Grande Espírito, Ñamandu, manifestando-se na forma de um colibri, capaz de ver a totalidade a partir do sutil mundo do espírito.
A coruja também foi outra forma de sua manifestação. Como Coruja, o Pai-Mãe Criador na Noite Cósmica criou a Sabedoria.
Ainda, dentro do mito da criação Guarani, há uma nítida relação entre a serpente, eixo que rege a vida, e a coluna vertebral humana, sustento do corpo material e espiritual, a que os hindus chamam kundalini.
Os antepassados da tribo dos Panará, chamados de "os de antes" (suankyara), são uma combinação de ser humano e animal. São eles os responsáveis por darem nomes às coisas e aos homens.
Para os Yanomami da Amazônia e Venezuela, todo homem tem como seu duplo anímico um animal de poder, chamado de "duplo animal".
Os animais também podem ser espíritos de ancestrais, que vivem nas florestas e que assumiram essa forma por terem comportamentos descontrolados ou fora de alguma regra social.
O folclore brasileiro ainda traz inúmeras descrições de animais com poderes peculiares, humanos com poder de assumir formas animais, amuletos, danças que imitam seus movimentos e sons.
Temos o boto, o uirapuru, a sereia, o muiraquitã, a cobra grande, o boitatá, enfim, um grande universo místico e mágico a ser explorado além das fronteiras históricas e antropológicas.


Tatiana Menkaiká

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